segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nunca a vida foi tão atual como hoje

"Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro.
Tempo para mim significa a desagregação da matéria.
O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo
tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse
roubando a este fruto toda a sua polpa.
O tempo não existe.
O que chamamos de tempo é o movimento de evolução
das coisas, mas o tempo em si não existe.
Ou existe imutável e nele nos transladamos.
O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta.
Então - para que eu não seja engolido pela veracidade das horas
e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa -
eu cultivo um certo tédio.
Degusto assim cada detestável minuto.
E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie.
Quero viver muitos minutos num só minuto.
Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas
que dão a idéia de imobilidade eterna.
Na eternidade não existe tempo.
Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não
se divide.
De agora em diante o tempo vai ser sempre atual.
Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado.
E amanhã vou ter de novo um hoje.
Há algo de dor e pungência em viver o hoje.
O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente."
( Trecho de "Um Sopro de Vida" - Clarice Lispector -pg 14)

Nenhum comentário:

Postar um comentário