sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011

2011

Hoje é zero hora:
Concentração no ato
Recuso o abstrato.
Para quê segundos, minutos e horas quando tudo o que me resta é o agora?

Nathália Polachini 

Carpe diem quam minimum credula postero

 Carpe diem quam minimum credula postero.
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint.
Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros.
Ut melius, quidquid erit, pati.
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare.
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida.
Aetas: carpe diem quam minimum credula postero.
(Poema de Horácio)

Tradução:
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,
Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Podemos sempre ser melhores. Basta pensarmos melhor.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Projeção

A imagem do meu eu
Junto à imagem do seu eu
sobre o meu...

A imagem da imagem do
nosso eu

que sou outro e continuo sendo sempre

eu quero ser o outro que penso que sou
Quando penso que fui, descubro que ainda estou.
Será?

Entre o meu complexo e o meu reflexo, há um espelho de ilusões
E assim quem eu sou depende de quem você é...

Eu, Ue
quem
é
você?

Volta para dentro!
Felicidade é estar bem consigo próprio

Nathália P.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nunca a vida foi tão atual como hoje

"Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro.
Tempo para mim significa a desagregação da matéria.
O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo
tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse
roubando a este fruto toda a sua polpa.
O tempo não existe.
O que chamamos de tempo é o movimento de evolução
das coisas, mas o tempo em si não existe.
Ou existe imutável e nele nos transladamos.
O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta.
Então - para que eu não seja engolido pela veracidade das horas
e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa -
eu cultivo um certo tédio.
Degusto assim cada detestável minuto.
E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie.
Quero viver muitos minutos num só minuto.
Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas
que dão a idéia de imobilidade eterna.
Na eternidade não existe tempo.
Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não
se divide.
De agora em diante o tempo vai ser sempre atual.
Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado.
E amanhã vou ter de novo um hoje.
Há algo de dor e pungência em viver o hoje.
O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente."
( Trecho de "Um Sopro de Vida" - Clarice Lispector -pg 14)

Quer parar de fumar?

USP registra histórias de sucesso no combate ao tabagismo

Centros de saúde são as melhores alternativas para as pessoas que sentem necessidade de auxílio para concretizarem a saída da dependência. Nestes locais, trabalham-se métodos para que o fumante consiga superar a dependência química (o vício em nicotina propriamente dito) e também a psicológica. Esse tipo de serviço é oferecido pelo Programa Antitabágico do Hospital Universitário (HU) da USP.

ServiçoO contato com o Programa Antitabágico do HU deve ser feito pelo telefone (11) 3091-9337. Para funcionários da USP, o número de contato é o (11) 3091-9319. Também é possível enviar um email para antitabagismo@hu.usp.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. . Para saber mais sobre o Programa, acesse www.tabagismo.hu.usp.br.

Para saber mais sobre o Dr. Bartô, acesse www.drbarto.com.br, que contém informações sobre o trabalho do projeto, jogos e vídeos educativos e apresenta informações sobre o tabagismo de maneira simplificada.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Silêncios

Isabel Allende
É escritora chilena, autora de Casa dos Espíritos.
O livro que estou lendo é Paula, lançado em 1995. Nesse livro, Allende escreve para sua filha que está em coma, contando-lhe a sua história e a de sua família, desse modo, ajudaria a sua filha a recordar os fatos quando saísse do coma. O livro é belíssimo! Em espanhol melhor ainda...Escolhi uma dentre as tantas partes para ilustrar:

"El tiempo se congeló en el cuarto y el sol se detuvo sobre las rosas de la terraza, el mundo retuvo el aliento para celebrar el prodigio de esa nueva vida. La matrona me pasó unas tijeras, corté el cordón umbilical y Andrea inició su destino separada de su madre. ?De dónde viene esta pequeña? ?Dónde estaba antes de germinar en el vientre de Celia? Tengo mil preguntas que hacerle, pero temo que cuando pueda contestarme ya habrá oldidado cómo era el cielo...
...Silencio antes de nacer, silencio después de la muerte, la vida es puro ruido entre dos insondables silencios" (p.273)
Isabel Allende

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A inevitabilidade Humana

Texto ótimo:
Marcelo Gleiser

Será que nós somos uma consequência inevitável das leis da natureza? Ou não passamos de acidente?
SEMPRE ACHEI que final de ano é época de reflexão, e não só de presente e festa. Portanto, vamos lá.

Olhe para as suas mãos.

Nela, você encontra átomos que pertenceram a estrelas desaparecidas há mais de 5 bilhões de anos. Essas estrelas, no final de sua existência, forjaram os elementos químicos que compõem o seu corpo, as montanhas, os rios e os oceanos.

Quando explodiram, elas espalharam suas entranhas pelo espaço sideral, os ingredientes da vida, em ondas de choque que se propagavam a milhares de quilômetros por segundo. Em um canto da galáxia, essas ondas se chocaram com uma enorme nuvem de hidrogênio, provocando instabilidades que levaram ao seu colapso. E dele nasceu o Sistema Solar, com sua corte de planetas e luas e, em um deles, seres capazes de questionar suas origens.

Somos, concretamente, restos de estrelas animados de consciência.

O incrível disso é que tudo começou com praticamente apenas hidrogênio e gravidade. Ao comprimir essas nuvens de hidrogênio em estrelas, a gravidade se tornou o grande alquimista cósmico, criando os elementos químicos a partir do mais simples. Na visão moderna do Universo, somos o que acontece quando damos alguns bilhões de anos de tempo ao hidrogênio e à gravidade.

Temos muitas lacunas a preencher nessa grande narrativa cósmica, e é isso que faz os cientistas acordarem todos os dias com pressa de chegar ao trabalho. Dentre as várias questões, uma das mais controversas é sobre nossa inevitabilidade. Será que somos consequência inevitável das leis da natureza? Ou um mero acidente, e o Universo poderia igualmente existir sem nós?

A posição mais conservadora diria que tudo o que podemos fazer é medir. Não existe qualquer plano ou objetivo, apenas o que ocorre. A história que reconstruímos à partir dessas medidas começa com (pelo menos) quarks, elétrons e radiação e, bilhões de anos depois, inclui vida e seres humanos. Não há dúvida de que a matéria ficou mais complexa com o passar das eras. Por quê?

Antes de tentar dizer algo, vale a pena contemplar o que já conseguimos até aqui. A ciência comprova nossa profunda relação com o Cosmos. Não apenas porque vivemos nele, mas porque somos feitos dele: nós e todos os agregados de matéria, vivos e não-vivos. Estamos no Cosmos e o Cosmos está em nós.

Quem duvida que a ciência é uma busca espiritual deveria refletir sobre o que escrevi acima. A pesquisa do cientista, os dados e sua análise quantitativa, são atividades que dão concretude à busca. Alguns ficam só nisso e estão bem assim. Mas uma visão menos focada revela o óbvio: a ciência responde a anseios espirituais que estão conosco desde tempos ancestrais.

Retornando à nossa questão, alguns acreditam que deve existir um princípio que justifique a tendência à complexidade. Mas não temos evidência disso. O Cosmos poderia ter se desenvolvido sem nós. Mas o fato é que estamos aqui! Se abrirmos mão desse princípio, temos que aceitar que somos um acidente.

Talvez seja essa a origem da nossa importância. Se podemos refletir sobre a vida, temos algo de especial. Isso deveria nos levar a uma reavaliação do nosso papel: guardiões da vida e do planeta. Talvez seja essa a nossa missão inevitável.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A MORTE

A morte tem que existir
Cruel, brava, ligeira
Para que a vida seja
Doce, alegre, passageira

Preta em sua hora
Ela vem e devora, deixando para trás qualquer súplica ou pedido

Mas assim mesmo a morte tem que ser
caso contrário, não é morte.
E essa é a condição de viver
A gente vive, mas a gente morre;

só vive, se morre.
só se vive, se se morre.
só vivo, se você morre.

É interessante e um tanto justo,
manter o equilíbrio
no momento lusco-fusco.

Nathália Polachini

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Planos para 2011

Mario Quintana s2
Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

Mario Quintana

PS: Amar mil cabeças e mil ideias, noventa cores e trinta formas, cinquenta corações e trezentos e sessenta e cinco dias. Esses são meus planos para 2011.                                                  Nathália Polachini.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Greenpeace coloca réplicas de monumentos no mar de Cancún

Ativistas do Greenpeace colocaram no mar, em Cancún, réplicas do Cristo Redentor e da estátua da Liberdade.
Para ler a reportagem: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/842749-greenpeace-coloca-replicas-de-monumentos-no-mar-de-cancun.shtml. 15/12/2010

Aproveitando...

O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA

Quando o homem atingiu a colina mais alto, os sinos tocavam na cidade embaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava a única árvore da chapada. O homem estava de pé com um saco pesado na mão.
Olhou para baixo com olhos míopes. Os católicos entravam devagar e miúdos na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto. Via também o rio que de cima parecia imóvel, e pensou: é domingo. Viu ao longe a montanha mais alta com as escarpas secas. Não fazia frio mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no chão. Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. Sem os óculos, seus olhos piscaram claros, quase jovens, infamiliares. Pôs de novo os óculos, tornou-se um senhor de meia-idade e pegou de novo no saco: pesava como se fosse de pedra, pensou. Forçou a vista para perceber a correnteza do rio, inclinou a cabeça para ouvir algum ruído: o rio estava parado e apenas o som mais duro de uma voz atingiu por um instante a altura - sim, ele estava bem só. O ar fresco era inóspito, ele que morara numa cidade mais quente. A única árvore da chapada balançava os ramos. Ele olhou-a. Ganhava tempo. Até que achou que não havia porque esperar mais.
E no entanto aguardava. Certamente os óculos o incomodavam porque de novo os tirou, respirou fundo e guardou-os no bolso.
Abriu então o saco, espiou um pouco. Depois meteu dentro a mão magra e foi puxando o cachorro morto. Todo ele se concentrava apenas na mão importante e ele mantinha os olhos profundamente fechados enquanto puxava. Quando os abriu, o ar estava ainda mais claro e os sinos alegre tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.
O cachorro desconhecido estava à luz.
Então ele se pôs metodicamente a trabalhar. Pegou no cachorro duro e negro, depositou-o numa baixa do terreno. Mas, como se já tivesse feito muito, pôs os óculos, sentou-se ao lado do cão e começou a observar a paisagem.
Viu muito claramente, e com certa inutilidade, a chapada deserta. Mas observou com precisão que estando sentado já não enxergava a cidadezinha embaixo. Respirou de novo. Remexeu no saco e tirou a pá. E pensou no lugar que escolheria. Talvez embaixo da árvore. Surpreendeu-se refletindo que embaixo da árvore enterraria este cão. Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da chapada, a encarar de olhos vazios o sol. Então, já que o cão desconhecido substituía o "outro", quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia. Não havia nenhuma confusão na cabeça do homem. Ele se entendia a si próprio com frieza, sem nenhum fio solto.
Em breve, por excesso de escrúpulo, estava ocupado demais em procurar determinar rigorosamente o meio da chapada. Não era fácil porque a única árvore se erguia num lado e, tendo-se como falso centro, dividia assimetricamente o planalto. Diante da dificuldade o homem concedeu: "não era necessário enterrar no centro, eu também enterraria o outro, digamos, bem onde eu estivesse neste mesmo momento em pé". Porque se tratava de dar ao acontecimento a fatalidade do acaso, a marca de uma ocorrência exterior e evidente - no mesmo plano das crianças na praça e dos católicos entrando na igreja - tratava-se de tornar o faro ao máximo visível à superfície do mundo sob o céu. Tratava-se de expor um fato, e de não lhe permitir a forma íntima e inpune de um pensamento.
À idéia de enterrar o cão onde estivesse nesse mesmo momento em pé - o homem recuou com uma agilidade que seu corpo pequeno e singularmente pesado não permitia. Porque lhe pareceu que sob os pés se desenhara o esboço da cova do cão.
Então ele começou a cavar ali mesmo com pá rítmica. Às vezes se interrompia para tirar e de novo botar os óculos. Suava penosamente. Não cavou muito mas não porque quisesse poupar seu cansaço. Não cavou muito porque pensou lúcido: "se fosse para o verdadeiro cão, eu cavaria pouco, enterrá-lo-ia bem à tona". Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade.
Afinal largou a pá, pegou com delicadeza o cachorro desconhecido e pousou-o na cova.
Que cara estranha o cão tinha. Quando com um choque descobrira o cão morto numa esquina, a idéia de enterrá-lo tornara seu coração tão pesado e surpreendido, que ele nem sequer tivera olhos para aquele focinho duro e de baba seca. Era um cão estranho e objetivo.
O cão era um pouco mais alto que o buraco cavado e depois de coberto com terra seria uma excrescência apenas sensível do planalto. Era assim precisamente que ele queria. Cobriu o cão com terra e aplainou-a com as mãos, sentindo com atenção e prazer sua forma nas palmas como se o alisasse várias vezes. O cão agora era apenas uma aparência do terreno.
Então o homem se levantou, sacudiu a terra das mãos, e não olhou nenhuma vez mais a cova. Pensou com certo gosto: acho que fiz tudo. Deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente de libertação. Sim, fizera tudo. Seu crime fora punido e ele estava livre.
E agora ele podia pensar livremente no verdadeiro cão. Pôs-se então imediatamente a pensar no verdadeiro cão, o que ele evitara até agora. O verdadeiro cão que agora mesmo devia vagar perplexo pelas ruas do outro município, farejando aquela cidade onde ele não tinha mais dono.
Pôs-se então a pensar com dificuldade no verdadeiro cão como se tentasse pensar com dificuldade na sua verdadeira vida. O fato do cachorro estar distante na outra cidade dificultava a tarefa, embora a saudade o aproximasse da lembrança.
"Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua", pensou então com auxílio da saudade. "Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu - como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei", refletiu curioso.
"Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente", pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.
"Lembro-me de ti quando eras pequeno", pensou divertido, "tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Mas desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro que se podia abandonar. Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão", lembrou-se o homem satisfeito, "tu terminava me mordendo e rosnando, eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe o que já significava aquele meu riso sem vontade. Eras todos os dias um cão que se podia abandonar."
"E como cheiravas as ruas!", pensou o homem rindo um pouco, "na verdade não deixaste pedra por cheirar... Este era o teu lado infantil. Ou era o teu verdadeiro cumprimento de ser cão? e o resto apenas brincadeira de ser meu? Porque eras irredutível. E, abanando tranqüilo o rabo, parecias rejeitar em silêncio o nome que eu te dera. Ah, sim, eras irredutível: eu não queria que comesses carne para que não ficasses feroz, mas pulaste um dia sobre a mesa e, com uma ferocidade que não vem do que se come, me olhaste mudo e irredutível com a carne na boca. Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. Era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos: Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. E eu, eu disfarçava como podia. Às vezes, sentado sobre as patas diante de mim, como me espiavas! Eu então olhava o teto, tossia, dissimulava, olhava as unhas. Mas nada te comovia: tu me espiavas. A quem irias contar? Finge - dizia-me eu -, finge depressa que és outro, dá a falsa entrevista, faz-lhe um afago, joga-lhe um osso - mas nada te distraía: tu me espiavas. Tolo que eu era. Eu fremia de horror, quando eras tu o inocente: que eu me virasse e de repente te mostrasse meu rosto verdadeiro, e eriçado, atingido, erguer-te-ias até a porta ferido para sempre. Oh, eras todos os dias um cão que se podia abandonar. Podia-se escolher. Mas tu, confiante, abanavas o rabo."
"Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa."
"Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. Com alívio abandonou-te. Com alívio sim, pois exigias - com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heróico - que eu fosse um homem. Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? 'Que não cabe em parte alguma', disse Marta prática. 'Que incomodará os passageiros', explicou minha sogra sem saber que previamente me justificava, e as crianças choraram, e eu não olhava nem para elas nem para ti, José. Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime subtitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer", pensou o homem cada vez mais lúcido.
"Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão", pensou o homem. "Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível."
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.
Um homem ainda conseguia ser mais esperto que o Juízo Final. Este crime ninguém lhe condenava. Nem a Igreja. "Todos são meu cúmplices, José." Eu teria que bater de porta e porta e mendigar que me acusassem e me punissem: todos me bateriam a porta com uma cara de repente endurecida. Este crime ninguém me condena. Nem tu, José, me condenarias. Pois bastaria, esta pessoa poderosa que sou, escolher de te chamar - e, do teu abandono nas ruas, num pulo me lamberias a face com alegria e perdão. Eu te daria a outra face a beijar."
O homem tirou os óculos, respirou, botou-os de novo.
Olhou a cova coberta. Onde ele enterrara um cão desconhecido em tributo ao cão abandonado, procurando enfim pagar a dívida que inquietantemente ninguém lhe cobrava. Procurando punir-se com um ato de bondade e ficar livre de seu crime. Como alguém dá uma esmola para enfim poder comer o bolo por causa do qual o outro não comeu o pão.
Mas como se José, o cão abandonado, exigisse dele muito mais que a mentira: como se exigisse que ele, num último arranco, fosse um homem - e como homem assumisse o seu crime - ele olhava a cova onde enterrara a sua fraqueza e a sua condição.
E agora, mais matemático ainda, procurava um meio de não se ter punido. Ele não devia ser consolado. Procurava friamente um modo de destruir o falso enterro do cão desconhecido. Abaixou-se então, e, solene, calmo, com movimentos simples - desenterrou o cão. O cão escuro apareceu afinal inteiro, infamiliar com a terra nos cílios, os olhos abertos e cristalizados. E assim o professor de matemática renovara o seu crime para sempre. O homem então olhou para os lados e para o céu pedindo testemunha para o que fizera. E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio de sua família.

Clarice Lispector

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sempre frágil

Sábado fui ao Kazebre Rock bar e além de rever a minha banda cover de coração, "Sete Cidades", do Legião Urbana, acabei por conhecer uma banda formada por 3 mulheres, a banda "Sempre Frágil". Elas mandam muito muito bem! Por isso, resolvi postar um vídeo da banda para que mais gente conheça. Abaixo também segue vídeo da "Sete Cidades". Levem em conta que o som e a filmagem não são dos melhores. Viva o rock brasileiro!


Sempre Frágil - Banda 100% feminina
http://semprefragil.com.br/


Sete Cidades. Os caras são demais! Confira outros vídeos no you tube!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Orgulho e Preconceito

"Ao longo da história da humanidade, os aspectos individuais da homossexualidade foram admirados ou condenados, de acordo com as normas sexuais vigentes nas diversas culturas e épocas em que ocorreram. Quando admirados, esses aspectos eram entendidos como uma maneira de melhorar a sociedade;[18] quando condenados, eram considerados um pecado ou algum tipo de doença, sendo, em alguns casos, proibidos por lei. Desde meados do século XX a homossexualidade tem sido gradualmente desclassificada como doença e descriminalizada em quase todos os países desenvolvidos e na maioria do mundo ocidental.[19] Entretanto, o estatuto jurídico das relações homossexuais ainda varia muito de país para país. Enquanto em alguns países o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado, em outros, certos comportamentos homossexuais são crimes com penalidades severas, incluindo a pena de morte."  http://pt.wikipedia.org/wiki/Homossexualidade

08/12/2010 - 16h00

Pais egoístas acham que filhos são gays apenas para deixá-los tristes, diz sexólogo

MARCELO JUCÁ
colaboração para a Livraria da Folha

Divulgação
 
Explicações fundamentais sobre a homossexualidade e seus mitos

"A homossexualidade é uma outra forma de a pessoa se relacionar amorosamente. Uma forma tão normal quanto a heterossexualidade. E isso não sou eu que falo, é a ciência que fala, é a posição científica atual moderna. O resto é loucura!".
Simples assim? "Simples assim!", é o que afirma o sexólogo Claudio Picazio, apesar de toda confusão que se cria (ainda) em torno do assunto.
Em entrevista à Livraria da Folha, o especialista comentou sobre sua mais nova obra, "Uma Outra Verdade", e de como, apesar do acesso à informação possível, pais e professores persistem na ignorância e preconceito, e contribuem negativamente na angústia de muitos e no "desavanço" da sociedade. "Eles (os pais) acham que os filhos são gays ou as filhas lésbicas apenas para deixá-los infelizes. Isso é de um egoísmo enorme", afirma.

Para Picazio, um dos grandes problemas que contribuem para a banalização da homossexualidade, é o "achismo". O autor afirma que "como todo mundo tem sexualidade, todo mundo fica julgando que é mestre em sexualidade. A questão é que tudo bem ser mestre na sua própria sexualidade, mas não na humana. O achismo é o que atrapalha, assim como as verdades religiosas", pontua Picazio.
O livro é dividido em duas partes, sendo uma direcionada aos educadores, e a outra aos pais, e escancara os principais dilemas vividos pelos homossexuais no ambiente escolar e familiar, além de comentar responsabilidades, decisões e consequências de cada ação tomada no futuro do indivíduo.
De acordo com o autor, além de pais e educadores, muitos homossexuais também têm comprado e aprovado o livro, por encontrarem ali histórias que se identificam e vivenciaram. Só que o recado que o autor faz questão de dar, é direcionado aos que ainda enxergam problemas e preconceitos no tema. "É um livro para deixar na cabeceira do pai e dar de dia do professor para seu professor", provoca Picazio.
Ouça entrevista.
*
Claudio Picazio elogia a atitude de pais que conversam abertamente com os filhos homossexuais sobre o tema e permitem namoros em casa.
Neste trecho, o sexólogo afirma que desconhece casos em que a escola, como instituição, prestou qualquer auxílio aos pais e alunos. O que acontece, geralmente, é um ou outro professor tentar ajudar, mas nada além disso.
*
"Uma Outra Verdade"
Autor: Claudio Picazio
Editora: Edições GLS
Páginas: 104
Quanto: R$ 29,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010