sexta-feira, 25 de março de 2011

O (NEO) REALISMO E A REALIDADE

Escrevi este texto em 2009, depois de ter lido "Os pequenos Burgueses" de Carlos de Oliveira:

O NEOREALISMO PSICOLÓGICO EM “PEQUENOS BURGUESES”

NEO-REALISMO PSICOLÓGICO
                  Como abarcar a realidade? Essa sempre foi uma grande questão para o artista que, de uma forma ou de outra, interage com o mundo por meio da arte. A realidade, uma construção em todos os níveis (histórico, sociológico, ideológico, psicológico, linguístico etc), pode ser percebida e construída por diferentes prismas.  Basta o artista escrever um livro, pintar um quadro, para estar criando uma percepção do real, que pode ser surreal, romântica, ultra-romântica, concreta. Como na construção de uma forma geométrica, essa percepção depende do ângulo e da profundidade que se almeja traçar.
                    Na literatura, outros aspectos são levados em conta, como o grau de objetividade e subjetividade usado nas descrições, a construção de personagens estereotipados ou psicologicamente desenvolvidos, o tipo de narração, os tipos de discursos diretos e indiretos, o emprego da linguagem poética em contraposição à linguagem mais técnica, entre outros. E quando a literatura se interessa pela política e a política pela literatura? Como fica a retratação da realidade?
                   O papel de denunciar a realidade social também ocupou os objetivos de estéticas literárias. Em Portugal, a literatura empenhada conhece com o Neo-Realismo uma nova forma de denunciar a realidade e as injustiças sociais; não se restringe apenas à objetividade do Realismo do século XIX - que já se propunha a analisar o homem dentro de seu contexto social, mas analisa o comportamento humano do homem social por meio da introspecção das personagens. Contempla, portanto, não só o mundo exterior, mas também o mundo interior, evidenciando as motivações psicológicas de cada ser. O neo-realismo é, portanto, “uma nova atitude do pensamento que se objetiva numa nova interpretação da realidade”[1]
EM “PEQUENOS BURGUESES”
                   Em Pequenos Burgueses de Carlos de Oliveira[2], o retrato social da pequena burguesia rural portuguesa é concebido, principalmente, por meio da técnica narrativa. Tal narrativa contempla um jogo de vozes que marca, de diferentes maneiras, tanto o discurso do narrador quanto o discurso das personagens. Diferentes modalidades discursivas entram em jogo, ora estamos diante do discurso direto (DD) e direto livre (DDL), ora do discurso indireto (DI) e indireto livre (DIL). Essa confluência de vozes e modalidades discursivas dá acesso aos personagens e aos acontecimentos por meio da mediação do narrador e por meio da própria perspectiva das personagens, através de seus pensamentos e diálogos internos.
                     É interessante observar como o narrador marca sua presença ou sua “ausência” no fato narrado. Os discursos estruturados de modos diversos evidenciam angústias, como as de Dona Lúcia, malícias, como as do Delegado, dissimulações, como as de Pablo Florez, entre outros sentimentos que os mostram como pequenos medíocres burgueses.
               
     Quando a rapariga entra no pátio do Major já o sol nascente faísca nas vidraças e as plantas húmidas cintilam à primeira luz. A casa é um edifício de dois pisos [...] O Major desce agora por ela, a enrolar um cigarro, enquanto Maria Luz se some na cozinha.
       Ao fundo da escada, risca um fósforo com raiva, a cabeça do fósforo salta, risca outro, acende o cigarro, e encosta-se a um dos pilares que sustentam a varanda alpendrada.[...] Repara então que tudo aquilo, a terra recriada em luz, o cheiro da fruta no nariz, o próprio cigarro, o acalmaram. Passa os dedo na barba escanhoada, verifica a macieza da pele [...].
       D. Lúcia, D. Lúcia, que te hei-de eu fazer? Não compreendes que, no relento da cama, uma mulher de certa idade, com as miudezas muito gastas, o fluxo menstrual a estiar, exala um odor enjoativo capaz de retrair o maior garanhão? Bem sei que te lavas, escarolas, perfumas, escovas os cabelos, mas isso é por fora e a velhice está lá dentro, onde não chegam os teus cremes nem os teus sabonetes. Que queres que te diga tudo cara a cara, te explique tintin por tintin a náusea insidiosa, o pântano da nossa cama, sobretudo desde que dormi com Rosário a primeira vez? [...]
       Da janela do quarto, D. Lúcia vê-lo desaparecer para lá da capela. As ferraduras da baia desprenderam uma nuvem de poeira [...]. Volta-se e olha para dentro do quarto. A roupa sobre a cômoda, o rosário com a sua cruz de prata na travesseira, tudo por arrumar. Levanta o rosário e acaricia as contas negras.
       Tenho rezado muito. Ronda-me a tentação. Nada irreparável por enquanto, apenas o desejo de partir um frasco de perfume e cortar uma veia, mas cortá-la se estiveres perto e puderes ajudar-me[...]. Talvez um bom especialista de Lisboa me pudesse ainda valer. O Dr. Neto, esse, limita-se a sorrir, as coisas são o que são, minha senhora. Basta olhar para ele, basta ouvi-lo. A sua alma não é chamada para aqui. Não, doutor?, tem a certeza?            [...]
       D Lúcia, D Lúcia, estou a chegar a Corgos, empoeirado da viagem. A baia fez um galope estupendo nos últimos quilômetros [...] Não me perguntes o que sinto, não to sei dizer.
(OLIVEIRA, 1972, p.13-16)

                A cena acima retrata o momento inicial em que a filha de Raimundo, Maria da Luz, chega à casa do Major para iniciar seu trabalho. Essa ação que se inicia com um narrador em terceira pessoa, relatando os acontecimentos e fornecendo as descrições da casa do Major e de seu comportamento naquela manhã nos leva à exposição do pensamento do Major no diálogo interno que trava consigo próprio e com uma D. Lúcia imaginária.              Em seguida, a focalização narrativa passa a seguir D. Lúcia por meio de uma narração indireta, em terceira pessoa, que acompanha seu olhar a observar o marido a se afastar de casa e a observar a roupa sobre a cômoda no interior do quarto. Imediatamente, o discurso em primeira pessoa: “Tenho rezado muito. Ronda me a tentação...” abre espaço para as reflexões de D. Lúcia que começa a travar um diálogo consigo própria e com Dr. Neto, provável médico local. Finalmente, o foco recai novamente no Major, que já longe de casa, chegando à casa da amante Rosário, conversa, internamente, com Dona Lúcia, como nos indica o vocativo: “D. Lúcia, D, Lúcia”.
                   Estamos, portanto, diante de vozes que traçam diálogos internos; uma personagem sozinha cria conversas com outro que escuta, responde e interage no “diálogo”. A exposição psicológica promovida pelos diálogos internos é bem focalizada pelo discurso direto livre, cuja ausência de marcas introdutórias usadas no discurso direto, como travessão, aspas, dois pontos permite, a partir da perspectiva da personagem, o desencadeamento das múltiplas vozes dentro de um único ser, estabelecendo o conflito entre a imagem do eu com a imagem do tu e a provável imagem que o tu desenvolve acerca do eu, como em um espelho de inúmeros reflexos.
                   Na cena em questão, apresentada por alguns fragmentos do capítulo IV, temos a perspectiva do narrador em terceira pessoa, seus adjetivos e julgamentos, temos a voz do Major no diálogo interior com D. Lúcia, a voz de D. Lúcia no diálogo interior com Dr. Neto, a voz do Dr. Neto interagindo com D. Lúcia: “As coisas são o que são, minha senhora” e, por fim, novamente a voz do Major a elucidar D. Lúcia em sua reflexão. Na íntegra, o capítulo ainda nos revela outras vozes e perspectivas, como o discurso direto estabelecido entre Paulino e Major.
                  Os verbos no tempo presente acompanham as ações das personagens conferindo dinamicidade e neutralidade à trama: “O major desce agora por ela [...] enquanto Maria Luz se some na cozinha”, como se uma câmera em movimento estivesse acompanhando e fotografando a realidade.  .
                   Diante dessa ficção que constrói a realidade, o novo realismo debruça-se nos discursos íntimos das personagens, encarando esses como uma porta para a realidade. Descobre-se, então, personagens que dialogam e sonham, mesmo que esses diálogos não possam ser externalizados. A arte preocupada com a vida denuncia problemas e lutas sociais, esses, por sua vez, podem ser localizados dentro do consciente das personagens:

“É neste compromisso constante com a realidade sem esquecer o mundo íntimo de cada uma que está a verdadeiramente novidade, a verdadeira nota fundamental do realismo dos nossos dias que desponta por toda a parte com um ar combativo e anti-irrealista, apesar de partir e de se nutrir, tecnicamente, com a mais aguda consciência dos pontos mais altos do irrealismo”[3]

                   Portanto, a interpretação da realidade em Pequenos Burgueses é marcada pelo olhar (neo) realista de caráter psicológico, o qual ganha, neste romance polifônico, a particularidade da exposição dos acontecimentos pelo viés externo e interno, contrapondo, assim, a aparência e a essência dos seres ali retratados, que pensam de uma maneira e agem de outra, que vivem precariamente, mas sonham magicamente, que traem, trapaceiam e que estão presos na própria vida medíocre burguesa.

Nathália Polachini

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] GOMES, Raul .Maria-Escada de serviço, 1948. In: Reis, Carlos. Textos do neo-realismo português, 1981, Seara Nova: Editorial comunicação, p.71.
[2] OLIVEIRA, Carlos. Pequenos Burgueses. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1ªedição brasileira, 1972.

[3] DIONÍSIO, Mario. Realismo, 1946. In: : Reis, Carlos. Textos do neo-realismo português, 1981, Seara Nova: Editorial comunicação, p.66.

-Anotações das aulas ministradas pela professora Lílian Jacoto (USP/DLCV) do curso de Literatura Portuguesa VI, 2º semestre de 2009

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