Educai aos meninos e não será necessário castigar aos homens.
Pitágoras
O que significa repensar a educação na atualidade?
Como afirmou a pesquisadora Roxane Rojo (UNICAMP) na conferência de abertura do IX Seminário de Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa da FEUSP proferido na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo em setembro de 2010, hoje o cenário educacional traz em conflito uma escola do século XIX com professores do século XX e alunos do século XXI. Essa constatação evidencia a escola como promotora de um modelo escolar obsoleto para atender o aluno que nasceu já na era na Internet num mundo de relações altamente globalizadas. Ainda, a afirmação corrobora o embate entre três segmentos que pelejam por um diálogo e por uma integração, mas que estão separados por séculos ou, posto de outra maneira, por diferentes anseios, eles são: a escola, o professor e o aluno.
Por essa razão, pensar a educação nos dias atuais é repensar o papel que cada agente comprometido com a educação representa, delineando suas atuações e seus “discursos” seja por meio de práticas políticas, metodológicas, reivindicatórias, comportamentais, ativas ou passivas.
Mas quem são esses agentes? A escola como instituição social que promove a formação do educando como pessoa e membro da sociedade? A família como fonte primária da educação de qualquer indivíduo? Os professores como agentes intelectuais transformadores? A sociedade como grande promotora de valores? O governo com a sua responsabilidade constitucional de garantir direito à educação a todos? Os meios midiáticos? Os livros e matérias didáticos?
A educação nasce no berço e se desenvolve onde?
I. A escola
I. A escola
O termo escola vem do grego “schole”, que significa descanso, ou o que se faz na hora do descanso, pois na Grécia Antiga a escola era para os que não precisavam trabalhar (Duarte, S. G. DBE, 1986). Hoje, a escola ganhou novas configurações (novas e distintas se pensarmos nas funções da escola da rede pública e da rede particular no Brasil) podendo servir exatamente àqueles que precisam de trabalho.
Em princípio, a escola representa, além de um lugar especializado para a construção de conhecimentos de diversos conteúdos de ensino, um espaço de socialização e formação do indivíduo no âmbito pessoal e social. Por outro lado, é possível pensarmos na escola como uma instituição que domestica o conhecimento e o aluno, funcionando como mera reprodutora da sociedade. O fato é que ao longo do século XX, como constata António Nóvoa, “concepções pedagógicas, psicológicas e sociológicas da infância foram-se misturando com ‘ideologias de salvação’, alimentando a ilusão da escola como lugar de ‘redenção pessoal’ e de ‘regeneração social’” (2002, p.15). Esse movimento, combinado com a destituição das famílias e das comunidades nas suas funções educativas e culturais, transferiu para a escola, o que Nóvoa denomina “um excesso de missões” (Idem). Conferiu-se à escola, portanto, o status de grande responsável pela educação, enquanto que a família e a sociedade foram marginalizadas em seus papéis como educadores.
Em grande escala, temos o sistema capitalista fundamentado por seus interesses econômicos, temos o Estado como o grande administrador dos interesses do país e de seus interesses políticos, a instituição escola que pode ou não atuar como um aparelho ideológico do Estado - Althusser (1918-1990) no início da década de 70 já afirmava essa atuação, e, dentro da microfísica do poder, vários outros agentes que formam e transformam a escola, desde o Ministério da Educação ao governo do estado, à prefeitura da cidade, passando para a diretora da escola, ao professor na sala de aula, aos pais em casa, ou isso tudo em ordem inversa. Contudo, sabemos que a escola só caminha para frente quando tais envolvidos na educação podem estabelecer diálogo e interação. Dessa maneira, a escola destituída da participação social e familiar não pode exercer um de seus propósitos mais importantes; fazer o aluno desenvolver uma relação positiva com o conhecimento. Nesse caso, quando o inverso se aplica, a escola deixa de ser escola para ser uma anti-escola.
II. A família e a sociedade
A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui.
Jean Jacques Rousseau
Jean Jacques Rousseau
Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro.
O primeiro contato social de um bebê é com a própria família, em seu próprio lar, por essa razão, a atuação da família no compromisso da educação é primordial para o desenvolvimento humano e intelectual de qualquer um de nós. Nos últimos tempos, as transformações nas estruturas e relações familiares acarretaram também numa mudança no modo pelo qual a família interage com a escola e com o compromisso da educação.
A ausência familiar impulsiona ainda mais o “excesso de missão” da escola, produzindo uma escola que ensina de tudo, desde educação sexual, educação ambiental à higiene e bons modos. Quando o poder das famílias na participação da vida escolar é reduzida, diminui-se também o diálogo existente entre a família e o próprio filho(a) que está na escola. A autonomia das famílias na participação na educação de seus filhos fortalece a interação da família, aluno e escola e colabora para a formação de um aluno mais seguro, confiante e participativo na vida escolar.
A esse respeito, Nóvoa salienta que as sociedades atuais manifestam grandes ambiguidades em relação à escola e aos professores: “O século XX foi aquele em que mais se investiu afetivamente nas crianças, mas foi também aquele em que elas mais tempo passaram separadas das famílias. Adquiriu-se uma noção muito nítida da importância da educação, ao mesmo tempo em que as comunidades foram abdicando sua função educativa” (1999, p.14). Essa ambiguidade é expressa na prática na fala de diretores e professores que se queixam que alguns pais, apesar de exigirem que a escola ensine, não comparecem às reuniões, não estimulam os filhos a fazer suas lições de casa e não acompanham os projetos da escola: “Os pais que exigem à escola a defesa dos valores, da tolerância e do diálogo [...] são os mesmos pais que deixam os filhos verem filmes ou divertirem-se com jogos para computador de extrema violência” (Idem).
O acesso à educação é um direito previsto na Constituição da República. O artigo 205 assegura que “a educação, direito de todos, é dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
A compreensão de que a sociedade por meio de seus cidadãos, dos meios midiáticos, das leis e programas de ensino tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa e igualitária não é uma constatação nova. Entretanto, o cumprimento dessa responsabilidade na prática não se dá de forma plena. Poderíamos, por exemplo, questionar a responsabilidade da televisão na promoção da educação no nosso país:
A compreensão de que a sociedade por meio de seus cidadãos, dos meios midiáticos, das leis e programas de ensino tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa e igualitária não é uma constatação nova. Entretanto, o cumprimento dessa responsabilidade na prática não se dá de forma plena. Poderíamos, por exemplo, questionar a responsabilidade da televisão na promoção da educação no nosso país:
ART. “1º a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil nas manifestações culturais” (L.D. B Título I Educação).
III. A escola, a família e a sociedade
Educação é aquilo que fica
depois que você esquece o
que a escola ensinou.
depois que você esquece o
que a escola ensinou.
Pensar que cabe à escola o papel exclusivo de educar é entender o processo de educação de modo bastante superficial, uma vez que o aluno que vai para a escola é proveniente de um lar, junto a sua família e está inserido numa comunidade específica. Ou seja, ele não carrega unicamente os valores cultuados na escola, ao contrário, primeiro ele leva os seus próprios. Nesse sentido, Nóvoa (1994) insiste na relação entre a escola e a sociedade: “uma nova relação entre a escola e a sociedade tem que basear-se, simultaneamente, num respeito pelo direito das famílias e das comunidades a participarem na ação educativa e num respeito pela autonomia e pelas competências profissionais dos professores” (1994, p.10).
A educação que comumente dizemos que “nasce no berço” deve prosseguir com sua trajetória e passar a ser de responsabilidade de todos os setores da sociedade, da família, dos professores, da comunidade e da escola, sendo sustentada também por outros meios e organizações sociais, cada um com a função que lhe compete.
Os responsáveis pela educação são todos aqueles que almejam a felicidade social.
Nathália Polachini
Referências Bibliográficas:
DROUET, R. C. R. Distúrbios da Aprendizagem. Editora Ática, 1990.
NÓVOA, A. Os professores na virada do milênio: do excesso dos discursos à pobreza das práticas. IN: Educação e Pesquisa/Revista da Faculdade de Educação da USP. SP:USP. Vol.25. nº1. Jan-Jun/99, p.11-20.
NÓVOA, A. A Relação Escola – Sociedade: novas propostas para um velho problema. In: SERBINO, R.V. et.al.(orgs). Formação de Professores. SP: UNESP, 1994.
NÓVOA, A. Formação de Professores e Trabalho Pedagógico. Lisboa, EDUCA, 2002.
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